domingo, 8 de agosto de 2010

FELIZ DIA DOS PAIS - com Arthur da Távola





Hoje é dia de meu aniversário.

E de todas as minhas modestas dimensões humanas,

a que mais me realiza é a de ser pai.

Ser pai

é acima de tudo, não esperar recompensas.

Mas ficar feliz caso e quando cheguem.

É saber fazer o necessário por cima e por dentro da incompreensão.

É aprender a tolerância com os demais e exercitar a dura intolerância

(mas compreensão) com os próprios erros.


Ser pai

é aprender errando, a hora de falar e de calar.

É contentar-se em ser reserva, coadjuvante,

deixado para depois. Mas jamais falar no momento preciso.

É ter a coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte.

É viver as fraquezas que depois corrigirá no filho, fazendo-se forte em

nome dele e de tudo o que terá de viver para compreender e enfrentar.

Ser pai

é aprender a ser contestado mesmo quando no auge da lucidez. É esperar.

É saber que experiência só adianta para quem a tem, e só se tem vivendo.

Portanto, é agüentar a dor de ver os filhos passarem

pelos sofrimentos necessários,

buscando protegê-los sem que percebam,

para que consigam descobrir os próprios caminhos.


Ser pai

é saber e calar. Fazer e guardar. Dizer e não insistir.

Falar e dizer. Dosar e controlar-se. Dirigir sem demonstrar.

É ver dor, sofrimento, vício, queda e tocaia, jamais transferindo aos filhos o que,

a alma, lhe corrói. Ser pai é ser bom sem ser fraco. É jamais transferir aos filhos

a quota de sua imperfeição, o seu lado fraco, desvalido e órfão.

Ser pai

é aprender a ser ultrapassado, mesmo lutando para se renovar.

É compreender sem demonstrar, e esperar o tempo de colher,

ainda que não seja em vida.

Ser pai é aprender a sufocar a necessidade de afago e compreensão.

Mas ir às lágrimas quando chegam.

Marina e o pai "babão"

 
Ser pai

é saber ir-se apagando à medida em que mais nítido

se faz na personalidade do filho,

sempre como influência, jamais como imposição.

É saber ser herói na infância, exemplo na juventude

e amizade na idade adulta do filho.

É saber brincar e zangar-se. É formar sem modelar, ajudar sem cobrar,

ensinar sem o demonstrar, sofrer sem contagiar, amar sem receber.


Luzia e o pai coruja
Ser pai

é saber receber raiva, incompreensão, antagonismo, atraso mental, inveja,

projeção de sentimentos negativos, ódios passageiros, revolta, desilusão

e a tudo responder com capacidade de prosseguir sem ofender;

de insistir sem mediação, certeza, porto, balanço, arrimo, ponte,

mão que abre a gaiola, amor que não prende, fundamento, enigma, pacificação.

Ser pai

é atingir o máximo de angústia no máximo de silêncio.

O máximo de convivência no máximo de solidão.

É, enfim, colher a vitória exatamente quando percebe que o filho

a quem ajudou a crescer já, dele, não necessita para viver.

É quem se anula na obra que realizou e sorri, sereno,

por tudo haver feito para deixar de ser importante.



Arthur da Távola
 
 
Marina e Luzia

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