sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

GENTILEZA DO SAMBA

Há muito tempo não tinha a oportunidade de vivenciar a realidade do mundo popular, entranhado num espaço aonde as pessoas queriam somente viver e saborear através da música e se sentir soberanas na sua arte. Uma forma de dizer que são unânimes e poderosas independente de quanto ganham de salário, qual carro têm e onde moram e sem importar a religião e etnia. Todos podem e devem comungar da mesma energia e entusiasmo que se espalha e contagia a quem presencia.

O samba possui uma magia inquestionável e, pra falar a verdade, deveria ser exclusivo daqueles que sabem admirá-lo. Os negros (não vou utilizar nenhum outro termo por não ser o "correto") têm total propriedade sobre esse ritmo e conquistam qualquer espaço que seja cantado. Dançam com maestria e desbancam a pompa de qualquer branco. Não faço conjecturas à etnia, e sim, reforço o talento nato e entranhado nos afro-descendentes.

Todos sabem da minha admiração pela cultura e história dos negros e, mais do que ninguém, defendo a exclusividade de sua arte. Desde a sua história, vindos de um continente escravizado, sua religião, seu desembaraço com a vida e sua habilidade de contornar a crise, até sua postura em relação ao seu sangue. Bravos e louros para eles que podem fazer arrepiar qualquer sujeito quando se depara com suas manifestações.

Voltando ao samba, quero testemunhar a alegria comovente e praticamente sem adjetivos da espontaneidade que vem das entranhas. Não faço menção ao pagode mal feito. Faço jus aquele samba de mesa possuidor de uma arte envolvedora e que comove qualquer turista que vem, principalmente, ao Rio de Janeiro. Não precisa conhecer o idioma e nunca ter escutado um samba do Zeca Pagodinho ou de Beth Carvalho. Basta escutar e ver. E não precisa ver com os olhos (sem redundâncias), tem que enxergar com o coração e alma. Estava lá na hora certa e com as pessoas certas e não poderia deixar de escrever esse artigo descrevendo minha experiência.

Sempre soube que isso existia e já participei de encontros em redutos típicos. Imaginem o samba numa mesa de bar, tocado por negros, dançado por negros, a maioria de negros, negros e sua peculiar forma de demonstrar amizade. Ali ninguém pode ser infeliz! Isso é regra e não se assuste se alguém numa tristeza muito grande começar a chacoalhar os ombros ou os pés.

Esses movimentos são impulsionados pela energia transmitida e induzida pela emoção.

Existem muitos autores e poetas que viveram para isso. Até hoje admiro a capacidade de abdicar do sofrimento em prol da magia do cantar. Não é um cantarolar pretensioso, pelo contrário. Trazem as pessoas (como nós) a reflexão instantânea de como viver. Não querem sofrer e fizeram essa opção. É ótimo. Vale à pena. Logicamente que não vou abrir mão de minha vida profissional e pessoas para viver do samba... A boemia referida é a forma correta de encarar os sofrimentos e obstáculos. Basta viver e simplesmente encontrar nas horas difíceis algo para se apoiar.

Deparamo-nos todos os dias com uma rotina totalmente sugadora de nossas energias através do trabalho, problemas familiares e dificuldades vividas por outras pessoas. Ah! Como nos envolvemos com os trâmites insuportáveis de outras pessoas.

Devemos parar e racionar como os poetas e compositores. Desejemos sua leve forma de encarar os procedimentos e burocracia inerentes a qualquer sujeito moderno ao nosso ambiente. Nossa forma de agir e realizar coisas devem ser pautadas nessa filosofia popular.

A gentileza também está inserida nisso, afinal, não haveria samba sem a amizade, solidariedade e humanismo. Sorte daqueles que têm essa oportunidade. Sorte minha, sua e de quem quiser. Samba (do bom) e gentileza pra você também.

LUIZ GABRIEL TIAGO

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