Artigo: A ESCOLA ENSINA, A FAMÍLIA EDUCA! * Por Flavia Porto.

Leciono em escola pública há onze anos e, diariamente, vejo explícitas demonstrações de falta de educação dos estudantes. Nossa rotina é recheada de palavrões, ofensas, falta de valores, total falta de limite e por aí vai. Digo nossa pois ouço reclamação de todos os lados, inclusive de professores de escolas particulares. Falta de educação não é sinônimo de falta de dinheiro pois conheço famílias paupérrimas que educam seus filhos exemplarmente.
As crianças são jogadas na escola e os pais, pelo menos uma boa parte, acha que somos nós os responsáveis pela educação a que lhes compete. Pensam que devemos ensinar-lhes respeito ao próximo, tolerância, dar-lhes limite e repassar valores, porém não é bem por aí. Acho que devemos complementar a educação, que deve ser dada em casa. Não podemos educar os filhos dos outros.
A desestrutura familiar também é a grande responsável por essa inversão de papéis. Famílias numerosas: 3, até mesmo 4 crianças de pais diferentes ou produção de filhos forçosamente independentes, ratificam esse desequilíbrio emocional e psicológico refletido na escola. Muitas das vezes a mãe também precisa sair para trabalhar, gerir o sustento de sua casa e acaba deixando seus filhos com babás ou outros familiares, que também não são os encarregados pela educação dessa criança. Quisera fossem com o devido comprometimento e consequente responsabilidade. Essas mesmas famílias estão apenas criando seus filhos não deixando passar fome nem frio, dando banho e um teto para dormir, esquecendo de educá-los.
Em contrapartida conheço vários filhos de pais separados, com mães que trabalham fora, cujas crianças são extremamente educadas. Essas famílias são estruturadas emocionalmente. E isso faz a diferença.
A função do professor é a de garantir seu desenvolvimento intelectual através do processo ensino-aprendizagem e não a de educar. Acabei de escutar uma frase nesse exato momento no Fantástico: educar é um ato de amor. Onde estará então o amor dessas famílias aos seus filhos, já que não estão os educando e sim, transferindo responsabilidades?
Estamos cumprindo um papel que não é o nosso, até porque o mínimo tentamos fazer para que consigamos ministrar as aulas, senão nem isso.
Os pais se tornam ausentes na educação dos filhos não fazendo parte do processo de aprendizagem por diversos motivos e acreditam que é na escola que ele receberá a educação necessária à vida e não é bem assim. Ele passa somente 4 horas conosco e 20 em casa. Imagino como deva ser essas 20 horas se na escola temos uma curta demonstração.
As crianças chegam à escola totalmente sem noção de nada: não sabem se comportar, não sabem ouvir, não respeitam os mais velhos, implicam o tempo todo uns com os outros, não aceitam o não como resposta, não conseguem entender que nas quatro horas em que estão lá devem seguir regras. E por aí vai! Nem o simples hábito de lavar as mãos após sair do banheiro eles tem.
O relato é imenso. Os exemplos, terríveis!

Para que vocês tenham uma breve ideia:

1) Aluno vem para a escola e passa a aula toda sem copiar suas atividades ou desenvolver suas tarefas e ainda diz à você que não faz porque não quer. (Sabemos que não tem como pegar na mão da criança e obrigá-lo a fazer.)
2) Aluno levanta de sua cadeira, atravessa a sala de aula e bate no colega à toa, sem motivo algum, pelo simples fato de ser violento. (Mesmo com motivo, violência é inadmissível!)
3) Xingamentos e ofensas mútuas em alto e bom som, dentro da sala de aula, na presença de professores, diretores, quem quer que seja.
4) Estudantes cospem pela janela do ônibus nos colegas que descem antes deles.
5) Aluno dizendo ao professor: “quem é que você tá pensando que você é?”
E em Volta Redonda a situação está muito mais grave, chegando à violência física.

Desrespeito total! E a escola não pode punir. Na verdade a escola não é local de punição, mas hoje em dia a palavra é punir (no sentido de reprimir).
Atitudes como essas são dignas de punição. A única coisa que podemos fazer é chamar os responsáveis, que já chegam à escola acusando o professor de perseguição e com um discurso pronto: “não sei mais o que fazer com esse menino!” Mãe não sabe, eu que tenho que saber???
Hoje em dia fala-se demais em limite e valores. Ou a falta deles. Ouço muito falar que esse problema é acometido pela inversão de valores. Os valores não se inverteram: caráter, tolerância, dignidade, respeito, ética, justiça, solidariedade, etc, todos eles e muitos mais estão aí, a diferença é que algumas pessoas tem, outras não. E o limite vem atrás disso tudo. Os pais que não falam o famoso “não na hora certa”, não imaginam como estão fazendo mal ao seu filho (mesmo que inconsciente), pois isso influenciará quando ele for adulto. Caso a família não tome a sua responsabilidade e cuide da educação de seu filho, a escola pouco ou nada pode fazer.
Às vezes ouço colegas dizendo que “antigamente as coisas funcionavam, aprendíamos o conteúdo escolar, se fizéssemos metade do que os alunos fazem hoje estaríamos expulsos da escola” Na verdade fomos educados pelos nossos pais, por isso é que as coisas funcionavam.
A educação é assim: você fala muito com seu filho diariamente até ele crescer. Quando estiver adulto e passar por alguma situação desafiante ele vai se lembrar de como foi educado e como teve limite. Então terá capacidade emocional para agir corretamente.
É a família que passa a segurança necessária para que ele consiga ser um adulto emocionalmente equilibrado e fazer a diferença em qualquer campo de sua vida.

“Eduquemos as crianças para não precisarmos punir os adultos.”
(não achei o autor dessa sábia frase)
*Flavia Alvaro Porto é a Flavinha, tem 38 anos, é casada, professora, bióloga, trilheira, tricolor de coração, ama pescar e mergulhar, adora música e, no geral, é extremamente bem humorada. Acredita que um dia os professores serão valorizados e espera estar viva para ver isso!
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